O debate sobre a música no meio evangélico parece que é interminável.
Muitas são as questões que envolvem esta discussão e congestionam fóruns na internet. Há várias teses e refutações, porém, poucas vezes se chega a um consenso sobre este tema.
Qual o ritmo certo para o louvor?
Podem-se utilizar todos os instrumentos para adorar a Deus?
Dança na igreja é correto?
Cantar música secular é pecado?
Embora para as pessoas mais esclarecidas estas perguntas pareçam irrelevantes, a maioria dos evangélicos se perde nestas questões. Há muito legalismo de uma parte e um liberalismo exagerado de outra.
Se em algumas igrejas é proibido o uso de instrumentos como bateria e guitarra, em outras as baladas de funk e música eletrônica substituem os cultos.
A Bíblia afirma que o povo perece por falta de conhecimento. E ainda diz: “errais por não conhecer as escrituras e nem o poder de Deus”. Falta ensino bíblico nas igrejas. Falta interesse em aprender.
Mas não são as questões de ritmo e instrumentos que quero colocar em pauta nesta postagem.
Quero discutir com os amados leitores a qualidade das letras das músicas que circulam no meio evangélico. As cantadas nas igrejas e as gravadas nos cd´s. Se bem que hoje as músicas mais cantadas nas igrejas são aquelas dos cd´s mais vendidos.
É impressionante como a maioria das músicas feitas para louvar a Deus está bem longe do verdadeiro louvor. Suas letras são pobres de conteúdo e sua essência nada tem a ver com o evangelho de Cristo.

Antropocentrismo
Em minha opinião, o maior problema na música evangélica são as letras antropocêntricas, isto é, letras que tratam, em sua essência, das necessidades da vida humana. O que não é correto, pois a canção deveria falar de Jesus e do evangelho.
Essas letras antropocêntricas, mescladas com uma forte pitada de triunfalismo, transformam-se em mensagens de auto-ajuda, que em nada edificam a igreja.
Geralmente falam de vitória, de milagres, de curas e prosperidade. Colocam o crente como alguém intocável e o exaltam ao ponto de se achar tão especial que jamais sofrerá as aflições deste mundo. E o pior, achar que ele é maior do que os outros porque é “ungido de Deus”. Ninguém pode tocá-lo, ninguém pode persegui-lo, nem maltratá-lo. Se alguém o fizer, será castigado severamente por Jeová.
Este problema atinge principalmente os pentecostais. Geralmente, quando estas músicas triunfalistas são cantadas, a igreja sente muito a “presença de Deus” ou entra no “reteté”, como se diz por aí, no meio do povo de Deus.
Um exemplo é a letra da música Sabor de Mel, que é um dos maiores sucessos do momento. Apesar de possuir algumas frases corretas, esta música traz uma mensagem totalmente deturpada da vida cristã e de quem é Deus.
O crente não está livre do sofrimento e da perseguição. Pelo contrário, Jesus mesmo afirmou que seriamos perseguidos por causa do Seu nome. Além de apresentar Deus como um Papai Noel, esta música traz um “sabor de vingança” e não de mel. Analise o trecho:
“Quem te viu passar na prova e não te ajudou
Quando ver você na benção vão se arrepender
Vai estar entre a platéia e você no palco
Vai olhar e ver Jesus brilhando em você”
Além de conter erros de ortografia, a música tenta provocar um desejo de vingança para quem está sendo perseguido. Quando ele alcançar a suposta vitória de Deus, vai poder exibir o troféu para todos os que o maltrataram. Meu Deus, onde está o evangelho de Cristo aí?
Como estas, existem muitas outras que exaltam o ser humano e colocam a Deus como um empregado. Seguindo o ritmo das pregações (?) triunfalistas e antropocêntricas, este tipo de música sempre traz frases como: “Deus vai te exaltar entre os seus irmãos”, “Eu declaro toda sorte de benção sobre a tua casa”, “Eu profetizo a vitória sobre a tua vida” “Eu quero de volta o que é meu”, “Determine a benção” “Ouse sonhar”, “Não desista dos teus sonhos” “Quem tem promessa não morre”, “Deus vai cumprir tudo o que tem te prometido”, “Você é mais que vencedor” “Hoje o meu milagre vai chegar”, entre muitas outras.
O número de músicas deste tipo é tão grande que se fossem enumerar os exemplos, ocuparia um grande espaço.
A igreja evangélica brasileira está sendo bombardeada com este tipo de mensagem nas músicas. Pouco se fala de Cristo e, quando se fala, é para ressaltar o que Ele pode fazer pelas pessoas. Os cantores não cantam mais hinos sobre a queda do homem e o amor de Deus em enviar seu único Filho para salvá-lo, sobre a volta de Jesus, sobre o amor ao próximo. Quando eles falam destes assuntos, utiliza-se de sensacionalismo e especulações.
Trocaram a simplicidade da Palavra de Deus pela psicologia de auto-ajuda. Os púlpitos viraram palcos para shows. Os ministros agora são artistas que massageiam o ego de uma platéia interesseira, cantando o que ela quer ouvir, enquanto ela contribui com gordas ofertas para que os ministros a deixem em paz. É a cultura hedonista de uma sociedade que acredita que o certo é aquilo que a faz feliz.
Uma sociedade que não se preocupa mais com a vontade de Deus. Uma sociedade que vê o Senhor como o gênio da lâmpada, a igreja como um shopping center de bênçãos e a oração como uma moeda de troca, usada em beneficio próprio. A fé é um amuleto para satisfazer os desejos egoístas e a Bíblia, um manual de como ser bem sucedido na vida.
Meu Deus! É tão difícil dizer estas coisas!
Queria que não fosse verdade. Infelizmente é a realidade da igreja evangélica brasileira. Uma igreja que tem inchado a cada dia, sem qualidade, sem ensino da Palavra. Uma igreja cheia de artistas (no sentido pejorativo da palavra). Cheia de mercenários tentando se promover à custa da ignorância do povo.
Ênfase Exagerada Ao Sobrenatural
Um outro problema nas letras das músicas evangélicas atuais é a ênfase dada ao sobrenatural. Palavras como milagre, fogo, poder, unção, mistério, manto e glória, entre outras, são largamente encontradas nos “hinos” hodiernos.
As emoções estão em primeiro plano. Confunde-se espiritual com místico e até com supersticioso.
As letras ressaltam de maneira exagerada e supersticiosa os milagres de Jesus, a manifestação do poder e da presença de Deus, os dons do Espírito Santo, os ministérios dados por Deus, a unção e a proteção de Deus sobre cada crente e a atuação do Espírito Santo na igreja. Além de confundir totalmente a atuação da milícia angelical, criando funções para os anjos segundo a criatividade do compositor, sem o menor apoio bíblico-teológico.
Estes assuntos e outros mais são tratados nas músicas sem a menor preocupação com a doutrina cristã. Muitas destas músicas são feitas por pessoas sem nenhuma formação teológica e musical, além de pouco conhecimento bíblico. Isso resulta no que vemos hoje na música cristã brasileira. Letras sem nenhum conteúdo de qualidade e com erros doutrinários gritantes. Letras que não tratam o sobrenatural da maneira correta, espiritualizando coisas naturais e banalizando a fé.
Eis alguns exemplos:
“500 graus de puro fogo santo e poder”, “quem mexer com crente ungido vai com a cara na poeira”, “determine, determine, determine a benção”, “recebe a cura, recebe a unção, unção de ousadia, unção de conquista, unção de multiplicação”, “quando a glória da igreja sobe, a glória de Deus desce”, “o varão do movimento acabou de chegar”, “vai haver um reboliço aqui neste lugar”, “se quiser receber é só glorificar”, etc.
Geralmente, este tipo de música, que dá ênfase exagerada ao sobrenatural, era mais cantada nas igrejas pentecostais, em ritmo de forró. Quando entoada, a igreja entrava no “manto”, como muitos dizem. Este “manto” significa que todos devem começar a gritar “glória a Deus” e “aleluia” o mais alto que puderem, pular e rodopiar até cair no chão e rolar pra lá e pra cá ou até mesmo se arrastar.
Hoje em dia, o forró não está mais em alta. Agora, predominam os ritmos chamados de “adoração”, que trazem letras repetitivas como um mantra.
A mesma coisa acontece quando estas músicas são entoadas. Com o surgimento das igrejas neo-pentecostais, também vieram outros modismos, como a unção do riso ou benção de toronto, a unção dos quatro seres, a unção do leão, a da lagartixa, entre outras. É muito difícil notar a diferença, hoje, entre uma igreja pentecostal e uma neo-pentecostal. A não ser por algumas exceções. A maioria das igrejas viraram cópias das cópias das cópias. Não há mais identidade. Assim acontece com a música. A maioria fala das mesmas coisas, são “meras repetições”. O que importa é vender!
A Influência da Música 
A música sempre fez parte da vida do ser humano. Seja como arte ou ritual religioso, a música esteve presente em todas as eras, inserida no cotidiano da raça humana.
Na liturgia dos cultos cristãos, ela sempre exerceu importante papel, porém, nunca ocupou tanto espaço em nossas reuniões como agora. Depois do surgimento do chamado “mercado da música gospel”, a música religiosa saiu dos limites dos templos e invadiu as rádios, tv´s e os palcos das casas de shows.
Hoje são normais as estrelas da música gospel, artistas que se dizem ministros de louvor e que levam multidões eufóricas aos seus shows. Tem ídolo gospel, fã-clube gospel, show gospel, tietagem gospel e muito mais.
É importante que a música tenha sido contextualizada para alcançar mais jovens e pessoas de todas as classes sociais. O que devemos nos preocupar é com a banalização do louvor. Nem tudo que se toca nas rádios e shows serve para o culto. As letras das músicas nem sempre trazem em sua essência o louvor e a adoração a Deus.
Precisamos tomar cuidado para que o crescimento da igreja evangélica no Brasil não destrua a espiritualidade e o discernimento. Nós não precisamos abrir mão dos princípios bíblicos e da seriedade para alcançar os perdidos. Aliás, se não observarmos os mandamentos de Deus nem estaremos alcançando os perdidos, mas somente convencendo-os a mudar de religião. As pessoas não esperam que façamos bailes gospel. Elas não esperam uma igreja que fica tentando se igualar ao mundo para poder alcançá-lo. As almas querem e precisam ouvir a verdade! Precisam ser conscientizadas de sua situação diante de Deus e saber que Jesus Cristo é o único caminho que pode conduzi-las e Ele.
Através da música podemos fazer isso!
Nosso louvor precisa louvar a Deus e ao mesmo tempo, falar com os perdidos. Falar da situação do homem pecador, da graça e do amor de Deus, da morte e sacrifício de Jesus, da santificação e da vida com Deus, da volta do nosso Salvador!
Veja a diferença de alguns hinos antigos e compare com os hits do momento. Não estou dizendo que só os hinos antigos é que são bons. Há muitas músicas que realmente louvam a Deus, mas compare e veja a diferença.
“Foi na cruz, foi na cruz, onde um dia eu vi meu pecado castigado em Jesus”, “Sim, neste sangue lavado, mais alvo que a neve serei”, “Vem a Jesus sem demora, crê no Filho de Deus”, “Já sei, já sei, comprado com sangue eu sou”.
Precisamos nos preocupar com aquilo que estamos cantando e ser mais críticos com as letras que tem o propósito de louvar a Deus. Assim estaremos agradando ao nosso Deus e crescendo como Igreja.